A Chapada é um dos melhores lugares do mundo para ler a evolução do planeta na própria paisagem.
O que é a Chapada Diamantina?
O Parque Nacional da Chapada Diamantina fica na região central da Bahia, entre quatro cidades: Andaraí, Lençóis, Mucugê e Palmeiras. Sua região identitária, porém, engloba cerca de 24 cidades em torno do Parque — podem ser mais, a depender dos aspectos geográficos considerados.
Num mapa da Bahia vê-se uma espécie de espinha, como uma coluna, de norte a sul. Afastando a vista, essa espinha se estende até a região central de Minas Gerais, com uma pequena falha na divisa entre os estados. Essa formação é o Supergrupo Espinhaço, a nossa mini cordilheira brasileira — mais de 1.000 km de extensão.
É o resultado de 4,5 bilhões de anos de mudanças na forma e no relevo da Terra. Aqui está um dos melhores lugares para observar essa evolução, pela idade das formações e pelos fósseis, pinturas rupestres e toda a história que afetou a paisagem. Hoje a região é feita de serras, conglomerados de rochas sedimentares e cavernas.
Porção norte do Supergrupo Espinhaço: Cordilheira do Sincorá, bacias do Rio Paraguaçu, Rio de Contas e Rio Una.Supergrupo Espinhaço, considerada a única cordilheira do Brasil.
Como se formou a Chapada Diamantina?
Há cerca de 1,7 bilhão de anos, a região do Supergrupo Espinhaço era uma imensa bacia de aproximadamente 60.000 km² — uma depressão parecida com uma tigela, no centro do supercontinente Columbia. Muitos rios convergiam ali, e por vezes o próprio oceano adentrava. Sedimentos foram depositados nessa depressão por cerca de 700 milhões de anos. Só no fim desse processo a vida multicelular começou a se proliferar, com a abundância de oxigênio na atmosfera.
O biólogo Roy Funch, em Um Guia Para a Chapada Diamantina, descreve o movimento como a montagem de um bolo de várias camadas que preenche a bacia inteira. Durante esse tempo o supercontinente se separa e volta a se juntar mais duas vezes, o que deixa o bolo disforme e quebrado.
Entre os choques de placas e continentes, o soerguimento foi o acidente geológico mais determinante para a paisagem. Imagine dois continentes se chocando: durante o impacto — que pode durar milhões de anos — uma porção de terra desce e outra é elevada. Foi o que aconteceu quando a Índia se incorporou à Ásia, criando o Himalaia; no nosso caso, quando a América se juntou ao continente africano.
Depois disso a erosão fez o seu trabalho de abrir vales, cavernas e grunas, redesenhando a paisagem até hoje. A água penetra lentamente entre as rochas e extrai pequenos sedimentos, que seguirão para rios e oceanos e formarão as montanhas do futuro, daqui a milhões de anos, quando os continentes se chocarem de novo.
Rochas calcárias e salitres
Principalmente entre Irecê e Iraquara, e também ao sul, perto de Andaraí e Nova Redenção, nos arredores do Rio Una — afluente do Paraguaçu. Potencialmente o último grupo a se formar. Chamam atenção pela quantidade de cavernas e grutas, e há relatos de fósseis no interior do Poço Azul.
Conglomerados de arenito
As formações mais antigas da Chapada. Rochas sedimentares de diversos tipos e origens que, após o soerguimento, formaram planaltos, vales e serras. Encontradas em todo o Parque Nacional e arredores — são as mais comuns.
Onde ver as principais formações?
Nossa principal sugestão é o Parque da Muritiba. Além dos grandes conglomerados maciços de arenito nas Piscinas Naturais do Serrano, dá para perceber o intemperismo nas rochas do Salão de Areias Coloridas, que se esfarelam ao toque, e as raríssimas rochas ígneas do Poço Halley, resultado de atividade vulcânica na área.
No caminho para a Cachoeira do Sossego há dobras geológicas que mostram a força do impacto que soergueu a Chapada, além da infinidade de camadas sedimentares que formam uma paisagem rústica e singular. Vale conhecer também a grandiosidade do Vale do Pati, no coração do Parque Nacional.